terça-feira, 24 de Junho de 2014

OGM: A vingança do professor Séralini


Após dois anos de luta contra a censura dos lobbies agro-industriais, a equipe do professor Gilles-Eric Séralini republica o seu estudo sobre os efeitos a longo prazo do Roundup e do milho transgénico NK603. O estudo, agora publicado na Environmental Science Europa, está disponível em open source, e poderá servir de base para futuros estudos científicos sobre a toxicidade dos OGM.

Não reavivar a polémica, mas lutar contra a censura: é a abordagem que desenvolve o CRIIGEN (Comité de Pesquisa e Informação Independente sobre Engenharia Genética), que inclui o Professor Séralini, na altura em que ele republique o dito estudo, que foi inicialmente publicado no final de 2012. Mas, depois de dois anos de batalha, a republicação na revista Environmental Science Europa tem as cores da vitória e um gosto de vingança.


Recorde-se da história excepcional de um importante estudo que foi sujeito a censura científica como nunca tínhamos visto antes.

Em novembro de 2012, Gilles-Eric Séralini e a sua equipe publicou na revista Food and Chemical Toxicology (FCT) um estudo de dois anos, analisando o efeito da alimentação dum milho OGM num grupo de animais, estudo esse que provocou controvérsia imediata quanto à sua validade científica. Ele concluia na toxicidade a longo prazo do pesticida Roundup e do milho OGM NK603 pesticida milho em ratos. A pesquisa é sem precedentes, tanto quanto à sua duração de experimentação que pela sua magnitude, tendo sido observados variados parâmetros.

A sua publicação, impulsionado pela intensa operação mediática tem um enorme eco. Mas dois dias depois, outros cientistas vêem criticar fortemente e, pouco depois, as autoridades de saúde francesas e europeias rejeitam as conclusões, dizendo que as conclusões não são suficientemente sólidas.

Secretamente, o lobbie pró-OGM organiza a contra-ofensiva. Um ex-funcionário da Monsanto (que comercializa o Roundup e o milho NK603), Richard Goodman, entre o comitê científico da FCT. No final de novembro de 2013, a revista anunciou a retirada unilateral do artigo. Séralini não admitiu a derrota: depois de vários meses ele ganha o direito de resposta, e obtem o apoio do  Committee on publication ethics, que considera a retirada injustificada. Cientistas de todo o mundo assinaram uma carta aberta na qual denunciam a "censura" que impede o avanço das pesquisas. Finalmente, hoje, terça-feira 24 de junho de 2014, o estudo é republicado noutra revista cientifica.



O que há de novo? 
No papel, nada de novo: nenhuma investigação adicional ou informações exclusivas. O estudo foi simplesmente reescrito para destacar os efeitos do Roundup, em vez dos OGM. Um esclarecimento importante. Porque a controvérsia surgiu da ligação supostamente estabelecida pelos pesquisadores entre OGM e cancro - enquanto Gilles-Eric Séralini aponta que a palavra "cancro" não estava escrita no texto do artigo. 
Sim, os resultados mostram um aumento nos tumores em ratos que consomem milho OGM, mas um tumor não é cancro! O pesticida é responsável por deficiências nos rins e fígado, bem como uma desregulação hormonal.
Efeitos similares foram também observados durante o consumo regular de milho NK603, tolerante ao Roundup. Tóxico portanto, mas não cancerígeno. A diferença é grande, mas negligenciada pela cobertura mediática, e explorada pelos críticos de Séralini.
Outra novidade: o estudo está agora disponível gratuitamente, sendo publicado numa revista científica em "open source". O objetivo aqui é que todos possam ter acesso diretamente ao texto, para tirar as suas próprias conclusões dos resultados. Um facto importante para os leitores científicos, são os dados em bruto, que também estão disponíveis.

Porque uma republicação? 
"O progresso científico requer debate e controvérsia para melhorar os seus  métodos com base em resultados objetivos", diz o editor da revista. "Permitir uma discussão racional" é o objectivo anunciado pela equipa de Séralini. Porque um estudo não publicado não tem valor científico. Sendo impossível de discutir o seu valor ou de aprofundá-lo através de novas pesquisas.
Por exemplo, o estudo pode agora ser citado na avaliação de risco dos OGM e do Roundup. Em fevereiro, o milho OGM TC1507 foi autorizado pela Comissão Europeia. Entre as razões apresentadas, a ausência de estudos demonstrando a toxicidade do produto. O estudo Séralini estava na altura relegado ao limbo do conhecimento científico.
Outra alegação: a promoção da transparência. "A escolha do open source não é trivial", diz o CRIIGEN. "Precisamos que todos os dados brutos, incluindo os da indústria, estejam em acesso livre." Isto porque a Monsanto e Pioneer não querem divulgar os pormenores da investigação de apoio à autorização de comercializar os seus produtos. O chamado "Segredo comercial".
Embora a revista onde é republicado o estudo ser pouco conhecida, porque bastante recente, ela tem a vantagem de estar disponível na internet. 
Mas as críticas já se fazem ouvir: porque uma revista tão pouco instalada entre os pesquisadores? Será que isso não confirma a natureza dúbia da pesquisa? Só que a publicação pertence ao grupo Springer, a maior editora de pesquisas científicas, e principal concorrente do grupo Elsevier, proprietário da .... Food and Chemical Toxicology.


Vingança pessoal? 
A republicação também soa como uma afronta aos muitos críticos do Séralini. Ele acabou de publicar um comentário sem inequívocos intitulado: "Conflitos de Interesses, confidencialidade e confiança na avaliação dos riscos para a saúde"
Carta de amor endereçada a Paul Christou(entre outras personalidades...), pesquisador em biologia vegetal, altamente crítico chegando a ser injurioso para com Séralini. "Também está ligado à Monsanto. Ele é o inventor declarado de várias patentes de culturas geneticamente modificadas, que a Monsanto, em sua maior parte, detém os direitos de propriedade ", escreveu o pesquisador no seu artigo.
Se o estudo não é perfeito nem impecável, a quantidade de críticas que ele sofreu são desproporcionadas. Porque as principais críticas, ou seja, tamanho muito pequeno da amostra e raça dos ratos, conhecido por ser suscetível a tumores, podem ser enviadas para outra pesquisa similar. Assim, um estudo encomendado pela Monsanto, usando a mesma raça e do mesmo número de roedores, mas que cobre apenas três meses, também foi publicado na revista Food and Chemical Toxicology sem que a comunidade científica se comova.

Tradução livre da ZLO
Artigo original em francês da Reporterre:

OGM : le professeur Séralini prend sa revanche


Video sobre o estudo em português




quinta-feira, 12 de Dezembro de 2013

Monsanto : as marcas cúmplices


Já conhecíamos a Monsanto. Envolvida em variados escândalos alimentares e de saúde, a multi-nacional é constantemente posta em causa. Mas, face às suas ações destrutivas e ao lobby feroz que efectua, a resistência está a  organizar-se! É possível boicotar, ou pelo menos evitar as marcas que utilizam os serviços da Monsanto. Aqui fica uma lista - não exaustiva - dos principais produtos alimentares a boicotar:


Sopas : as marcas Royco, Liebig e Knorr;

Produtos Lácteos : o leite Gloria e os iogurte Yoplait;

Confeitaria : Cadbury, Poulain, Carambar, La Vosgienne, Hollywood chewing-gum;

Alimentação geral : os produtos Uncle Ben's, a mostarda Amora, ketchup Heinz;

Gelados : Häagen Dazs, Magnum, Viennetta;

Os cereais do pequeno-almoço :  Kellogg’s Corn Flakes, Spécial K, All Bran;

Bolos e chocolates : as bolachas da Lu, os chocolates Milka, Carte Noire, Côte d’Or, Suchard e Toblerone;

Batatas fritas : Lay’s e Pringles;

Bebidas : o café Maxwell, o chá Lipton (e por extensão as marcas do grupo Unilever), os sumos de fruta Tropicana;

Refrigerantes : Coca-Cola, Pepsi Cola, Minute Maid, Fanta, Schweppes;

Outras : as fraldas Pampers, a marca Oral-B, os produtos Dove, Timotei, Rexona, todas as marcas do grupo Procter & Gamble (ver a lista).
Marcas parceiras da Monsantp © Indignés du monde entier


            Blog médiapart


segunda-feira, 5 de Agosto de 2013

EFSA : Os estudos de toxicidade dos OGM passam a durar dois anos

Até parece que a EFSA, a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, não quer que ninguém saiba. Isto porque foi muito discretamente que no último dia de julho a agência fez uma declaração considerada de "muito importante" pela euro-deputada Corinne Lepage.

Trata-se dos novos princípios directores para os estudos sobre o risco de câncro e / ou toxicidade dos alimentos integrais, uma vez que tenham sido comercializados. Nada muito empolgante à primeira vista. No entanto, este documento modifica a duração dos estudos futuros a dois anos, contra os anteriores 90 dias (tempo definido no final de 2011).

"Na formulação dos seus princípios directores, a EFSA teve em conta as opiniões de peritos dos Estados-Membros da UE, que foram consultadas através da rede de avaliação científica dos riscos dos OGM", disse a autoridade no seu comunicado.

O CRIIGEN (Comitê de Pesquisa e Informação Independente sobre Engenharia Genética) aplaude com as duas mãos. O seu Presidente do Conselho Científico, o Professor Gilles-Eric Séralini, saúda "o despertar da consciência para a saúde pública que pedimos há quinze anos."

Ele é o autor de um estudo controverso sobre a toxicidade do milho transgénico NK603 da Monsanto, geneticamente modificado para ser tolerante ao herbicida Roundup. Os ratos que tinham consumido este milho durante dois anos desenvolveram tumores significativos. Mas a validade do estudo foi rejeitado pela EFSA em setembro de 2012, em parte porque a duração tinha sido considerada ilegal...

Fonte : TerraEco.net

Tradução livre : ZLO

quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

Europa congela autorizações de cultura de OGM até 2014


A Comissão Europeia decidiu congelar os processos de autorização de cultura de transgénicos até ao final do seu mandato em 2014 procurando entretanto um acordo entre os estados membros da União Europeia.
“Se quisesse, a Comissão poderia lançar os procedimentos de autorização para a produção duma soja e de seis variedades de milho OGM… mas não fará isso”, disse Frederic Vincent, porta-voz do comissário para a saúde Tonio Borg. “As autorizações para cultivo de transgénicos estão congeladas”, completou.
A prioridade de Borg, que acabou de assumir a sua função, é reabrir as discussões com os estados membros.
As aprovações de cultivos transgénicos pela Comissão envenenaram as relações com uma série de países dos 27 estados membros da União Europeia. Oito países — Áustria, Bulgária, França, Alemanha, Grécia,Hungria, Luxemburgo e Polônia — adoptaram medidas que lhes permite bloquear o cultivo de transgénicos nos seus territórios.
Em 14 anos, a UE aprovou o cultivo de apenas dois tipos de transgénicos, a batata Amflora (Basf) e o milho MON810 (Monsanto).
A Amflora foi um fiasco comercial, e a renovação da autorização do MON810 está pendente desde 2007 e entra no “gelo” imposto agora pela Comissão.
No entanto, o  MON810 pode continuar a ser cultivado em estados que o permitem, até que a Comissão tome uma decisão.
Cerca de 50 produtos transgénicos para ração animal são permitidos no bloco.

Fonte:   AFP

Tradução livre: Em pratos limpos
                                     e
                                         ZLO

terça-feira, 27 de Novembro de 2012

Peru proíbe transgénicos durante 10 anos



O Congresso peruano aprovou por 98 votos a favor e 2 abstenções um decreto que determina a proibição, por 10 anos, da entrada e produção de organismos geneticamente modificados no país.


O Peru é um dos maiores exportadores de produtos biológicos do mundo, incluindo café e cacau, gerando mais de $3 bilhões por ano e com mais de 40 mil produtores certificados.


           BBC

segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

Tribunal de Contas Europeu aponta conflitos de interesse na Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA)



Num relatório divulgado a 11 de outubro, o Tribunal de Contas Europeu (European Court of Auditors – ECA) emitiu uma mensagem altamente crítica para quatro das agências Europeias, condenando a sua incapacidade de gerir de forma adequada os conflitos de interesse.
O ECA conduziu uma investigação sobre as políticas de conflitos de interesse na Agência Europeia de Aviação (EASA, na sigla em inglês), na Agência Europeia de Químicos (ECHA), na Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e na Agência Europeia de Medicamentos (EMA). A EASA mostrou os piores resultados no relatório, mas deficiências significativas foram identificadas também na EMA e na EFSA.
Nina Holland, da ONG Corporate Europe Observatory, disse: “Este relatório confirma que não existe um sistema efetivo nas agências para banir os conflitos de interesse ou para impedir que suas equipes atravessem as portas giratórias entre as agências e a indústria. Os conflitos de interesse em curso na EFSA e na EMA colocam em risco a segurança dos alimentos e a saúde pública. As agências até agora falharam em tomar atitudes que são terrivelmente necessárias.”
O relatório do Tribunal de Contas contrasta fortemente com o elogio que a agência recebeu recentemente da empresa Ernst & Young, contratada pela EFSA para realizar uma avaliação da agência.
Holland acrescentou que a EFSA está distorcendo a mensagem do Tribunal de Contas ao enfatizar a observação de que o sistema da agência para lidar com conflitos de interesse parece “mais desenvolvido” do que o de algumas das outras agências. Ela argumentou que mesmo que a EFSA tenha recentemente feito algumas mudanças em sua política e suas práticas, estas não foram suficientes para que se possa dizer que todos os problemas estão resolvidos.
O relatório também critica a presença de figuras da indústria no conselho de administração da EFSA. Essa ameaça à imparcialidade da EFSA, diz o documento, é agravada pelo fato de que três dessas organizações são ao mesmo tempo representadas na Plataforma Consultiva das Partes Interessadas (Stakeholder Consultative Platform). Esta é uma clara mensagem às instituições que estão para começar uma revisão da regulamentação de financiamento da EFSA, onde isso poderia ser mudado.
O comunicado de imprensa em português aqui: http://eca.europa.eu/portal/pls/portal/docs/1/17216795.PDF
Corporate Europe Observatory – Exposing the power of corporate lobbying in the EU, 11/10/2012.
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A EFSA é a agência que aprovou a variedade de milho transgênico NK603 (da Monsanto, tolerante à aplicação do herbicida Roundup, avaliado recentemente por pesquisadores franceses e apontado como podendo aumentar o risco de desenvolvimento de câncer), considerando-a segura para consumo, e que no início de outubro publicou uma nota afirmando ter concluído que “a publicação recente que levantou preocupações acerca da potencial toxicidade do milho NK603 e de um herbicida contendo glifosato é de qualidade científica insuficiente para ser considerada válida como avaliação de risco” (ver artigo).
Fonte: AS-PTA

terça-feira, 16 de Outubro de 2012

Alimentar o mundo sem pesticidas é possível


É possivel alimentar o mundo inteiro sem pesticidas. Quem o defende é Marie-Monique Robin, uma jornalista e documentarista francesa que percorreu o mundo para ouvir as opiniões de especialistas - de camponeses a engenheiros agrónomos - e concluiu que, sem o recurso a químicos, a população internacional seria capaz de produzir alimentos em quantidade suficiente para que ninguém passasse fome.


Robin, que tem trabalhado numa série documental de três partes sobre a contaminação alimentar desde 2008, acaba de lançar o seu mais recente trabalho, "Les Moissons du Futur" (As Colheitas do Futuro, em português), que se debruça sobre a questão da "agroecologia", uma combinação entre a agricultura, a sustentabilidade e a proteção do meio ambiente.

"Durante a realização dos meus filmes participei em dezenas de conferências em que as pessoas me perguntavam: mas, afinal, é possível alimentar o mundo sem pesticidas?", conta a jornalista, também autora de várias obras sobre os direitos humanos na América Latina, em declarações à AFP. 


Com o seu novo documentário, o último da trilogia, Robin tentou compreender se é ou não possível resolver a crise alimentar seguindo a "agroecologia". Andou pelo planeta, do Japão ao México, passando pelo Quénia e os EUA, e reuniu-se com peritos, camponeses, agricultores e engenheiros agrónomos.
 
A conclusão foi clara: não só é possível produzir bens alimentares em quantidade suficiente para que não haja fome no mundo e sem prejudicar o planeta, como o facto de não se poder alimentar o mundo inteiro atualmente "se deve aos pesticidas", garante a jornalista.

Agricultura ecológica é a solução, assegura Robin
 
Para mudar esta realidade, adianta, deverá recorrer-se, então, à agricultura ecológica, que consiste num tratamento adequado do solo, no uso eficiente da água e no investimento em diversidade vegetal, uma mistura de fatores que permitiria pôr fim à situação atual e alimentar a Terra, alargando os benefícios à própria Natureza.
 
O filme, que foi lançado em DVD hoje dia 16 de Outubro e acompanhado de um livro, ambiciona provar tal possibilidade, reunindo uma série de testemunhos de camponeses de todo o mundo que têm substituído os inseticidas por técnicas aparentemente simples, que matam as ervas-daninhas sem prejudicar o solo e sem efeitos nefastos na saúde.
 
A obra inspira-se também num trabalho de Oliver De Schutter, relator especial das Nações Unidas pelo direito à alimentação, que foi dado a conhecer em 2011 e que afirma que o método baseado na renovação dos solos e na eliminação dos fertilizantes químicos pode, inclusive, permitir melhorar os rendimentos das regiões mais pobres e adaptar-se mais facilmente às alterações climáticas.


Fontes: AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia
           AFP - Agence France Press
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